
Em um episódio histórico que remonta a 30 de agosto de 1875, cerca de 300 mulheres de Mossoró, no Rio Grande do Norte, protagonizaram o Motim das Mulheres, um ato de resistência contra um decreto imperial que regulamentava o recrutamento militar. Armadas com pedras, facas e utensílios domésticos, elas atacaram a sede do jornal local e rasgaram editais que estavam afixados nas portas da igreja matriz.
O contexto do motim estava ligado ao alistamento militar, que causava pânico entre as mulheres, especialmente após a perda de maridos e filhos na Guerra do Paraguai, que ocorreu entre 1864 e 1870. A legislação que gerou o motim visava organizar o recrutamento militar, uma resposta tardia às cicatrizes deixadas pelo conflito. O escritor e pesquisador Geraldo Maia do Nascimento explica que a revolta foi uma manifestação contra a obrigatoriedade do alistamento, que era visto como uma medida para substituir os mortos na guerra.
A insatisfação popular era palpável. O historiador Luís da Câmara Cascudo destaca que o ano de 1875 foi marcado por uma intensa vibração política e que a lei foi mal recebida pela população, gerando uma série de protestos em várias cidades do Rio Grande do Norte. Em um dos episódios, em 1º de agosto, homens e mulheres, acompanhados por indígenas, invadiram a Igreja Matriz e destruíram documentos relacionados ao recrutamento.
Cascudo também menciona que em Canguaretama, no mesmo dia, um grupo de pessoas, incluindo mulheres, atacou a igreja onde o alistamento estava ocorrendo, resultando em feridos. As mulheres, segundo relatos, eram as mais ativas, lutando para proteger seus filhos e maridos.
O Motim das Mulheres é visto como parte de um ciclo de revoltas populares e, segundo o professor Jerônimo Vingt-un Rosado Maia, a figura de Ana Floriano se destacou como uma das líderes do movimento. Ela, descrita como uma mulher forte e corajosa, conduziu as 300 mulheres em um cortejo até a Igreja de Santa Luzia, onde destruíram os editais de alistamento.
O artista plástico Isaías Medeiros, que produziu diversas obras sobre o motim, enfatiza a força e a coragem das mulheres que enfrentaram o poder estabelecido. Ele destaca que elas marcharam armadas com utensílios domésticos e enfrentaram a polícia local, que tentava reprimir o protesto. O motim culminou em um confronto, mas a intervenção de figuras influentes da comunidade evitou consequências mais graves.
O episódio foi registrado em ofício enviado ao presidente da Província, que minimizou o número de participantes, mas a força do movimento feminino não pode ser subestimada. Deoclecio Evaristo de Oliveira Júnior, arquivista do Museu Histórico Lauro da Escóssia, define o motim como um importante protesto de mães que lutaram pelo direito de seus filhos não serem alistados.
A figura de Ana Floriano, cuja história foi registrada no Dicionário Mulheres do Brasil, destaca-se não apenas por sua liderança, mas também por representar um grupo de mulheres respeitáveis que chocaram a sociedade da época. Medeiros, em suas obras, busca dar rosto a essas mulheres, lembrando que, embora a historiografia tradicionalmente enfatize as elites, mulheres negras também participaram do motim.
O Motim das Mulheres é considerado um marco na luta feminina em Mossoró, simbolizando a capacidade de organização e resistência das mulheres em um contexto historicamente machista. O artista Medeiros expressa sua admiração por esse episódio, ressaltando a beleza e o pioneirismo das mulheres que se levantaram contra a opressão.