
O carnaval de Olinda, um dos mais tradicionais do Brasil, voltou a atrair milhares de foliões após um hiato de dois anos devido à pandemia de covid-19. O icônico Homem da Meia-Noite, com sua cartola e fraque verde e branco, é uma das figuras centrais que marcam o início da festa, mas a experiência dos participantes tem sido impactada pela crescente presença de publicidade de casas de apostas.
Desde 2023, a festa tem sido marcada por um aumento significativo na publicidade das casas de apostas, que investiram R$ 3,5 bilhões em marketing no setor esportivo brasileiro, conforme um relatório do Itaú Unibanco. Em Olinda, a situação se intensificou no ano passado, quando a empresa Esportes da Sorte se tornou a patrocinadora oficial do carnaval, promovendo ações que incluíram a distribuição de brindes como viseiras e chapéus, todos ostentando sua logomarca. A maior parte desses materiais é feita de poliéster, originado de plástico.
Moradores e frequentadores do carnaval expressaram preocupação com o aumento do lixo nas ruas, que se intensificou com a crescente quantidade de material publicitário. Beatriz Arcoverde, produtora cultural e brincante de carnaval, comentou que a quantidade de lixo tem crescido a cada ano, especialmente em comparação com os arrastões de limpeza que costumavam ocorrer após a festa.
A Esportes da Sorte, que novamente patrocina o carnaval em 2024, não revelou os valores de seu patrocínio, mas no ano anterior, a empresa desembolsou R$ 1,6 milhão. A artista Catarina Dee Jah, incomodada com a presença massiva de publicidade das casas de apostas, lançou o manifesto “Bet A Feia”, uma crítica ao marketing agressivo das apostas. Sua arte provocou um debate sobre a ética da publicidade em eventos populares e o potencial de vício associado a essas práticas.
O tema das apostas e sua regulamentação está em discussão no Senado, onde tramita um projeto de lei que visa restringir esse tipo de propaganda, considerando os riscos à saúde pública. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo revelou que cerca de 11 milhões de brasileiros apresentam características de jogos problemáticos.
A presença de marcas associadas a vícios não é uma novidade no carnaval, já que anteriormente marcas de bebidas alcoólicas e cigarros também dominaram a cena. Os críticos apontam que a gestão municipal não tem acompanhado o crescimento do evento, resultando em problemas como a falta de limpeza e organização durante as festividades.
Além disso, a falta de apoio público tem levado troças e blocos a depender cada vez mais de patrocínios privados, especialmente após a pandemia, que trouxe um aumento nos custos de produção. Sanderson Menezes, presidente da troça Menino da Tarde, ressaltou que o carnaval se tornou mais caro, exigindo mais investimentos para atender a demanda crescente de foliões.
Por outro lado, alguns blocos tradicionais, que conseguiram se manter por meio de autogestão financeira, não recebem patrocínio e enfrentam dificuldades para realizar suas festividades. Luciana Veras, organizadora do bloco Eu Acho É Pouco, destacou que a falta de ordenamento na publicidade poderia permitir uma convivência harmoniosa entre tradição e inovação, sem comprometer a identidade cultural do carnaval.