Chuva, tarifas de Trump e queda do açúcar mudam estratégia da cana no Norte e Nordeste
20 de maio de 2026 / 16:44
História da cana-de-açúcar no Brasil: liderança mundial
Foto: Divulgação

Durante décadas, o açúcar foi o grande eixo econômico da cana-de-açúcar no Nordeste.

Agora, uma combinação entre clima, geopolítica e mercado internacional começa a redesenhar silenciosamente o destino do setor sucroenergético regional.

Chuvas acima do esperado, tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos e a forte queda nos preços internacionais do açúcar provocaram uma mudança relevante na atual safra:
as usinas do Norte e Nordeste passaram a direcionar mais cana para a produção de etanol.

O Nordeste vive a safra mais alcooleira dos últimos anos

Dados da NovaBio mostram que, até março, 54,96% da cana processada nas duas regiões foi destinada ao etanol, configurando um dos ciclos mais alcooleiros dos últimos anos.

A produção de açúcar caiu 16%, enquanto o etanol avançou 32,9% no mesmo período.

O movimento revela uma mudança importante:
o setor começou a reagir mais rapidamente às oscilações globais de mercado.

A geopolítica chegou ao canavial nordestino

O impacto das tarifas impostas pelos Estados Unidos ao açúcar brasileiro atingiu especialmente as usinas do Norte e Nordeste.

Historicamente, parte da produção regional era exportada dentro de cotas preferenciais para o mercado americano, que ofereciam preços mais vantajosos.

Com as restrições comerciais e o ambiente internacional mais instável, o setor perdeu competitividade justamente em um momento de queda global do preço do açúcar.

Isso acelerou a migração para o etanol.

O clima também alterou a lógica da safra

O excesso de chuvas no Nordeste comprometeu a qualidade da matéria-prima ao reduzir o teor de sacarose da cana.

O índice de Açúcar Total Recuperável (ATR), um dos principais indicadores de qualidade do setor, registrou queda relevante na safra atual.

Na prática, isso tornou menos eficiente economicamente a produção de açúcar em parte das usinas.

O etanol ganha protagonismo estratégico

A mudança de perfil da safra mostra como o etanol começa a ocupar uma posição mais estratégica dentro do setor sucroenergético nordestino.

Além da demanda doméstica crescente, o biocombustível passou a ser visto como:
• alternativa de margem operacional
• proteção contra volatilidade internacional
• ativo ligado à transição energética
• produto menos exposto às tensões comerciais globais

O avanço da mistura de etanol na gasolina também reforça essa tendência.

O setor vive uma transformação estrutural

O que acontece hoje no Nordeste vai além de uma simples oscilação de safra.

O setor sucroenergético começa a entrar em uma nova fase marcada por:
• maior flexibilidade produtiva
• adaptação climática
• dependência menor do açúcar
• valorização do biocombustível
• pressão geopolítica internacional

A lógica tradicional do setor, fortemente ancorada no açúcar exportador, começa gradualmente a mudar.

O Nordeste energético ganha nova importância

O movimento também reforça um fenômeno mais amplo:
o Nordeste começa a ampliar seu papel dentro da nova economia energética brasileira.

A região já concentra investimentos em:
• etanol
• energia solar
• energia eólica
• hidrogênio verde
• bioenergia

Nesse novo cenário, a cana deixa de ser apenas commodity agrícola.

Ela passa a ocupar posição estratégica dentro da transição energética e da segurança de abastecimento nacional.

O futuro da cana pode ser menos açucareiro

A safra atual mostra que o setor sucroenergético nordestino começa a operar em um ambiente muito mais complexo do que no passado.

Hoje, o destino da cana depende simultaneamente de:
• clima
• geopolítica
• mercado internacional
• energia
• câmbio
• transição ambiental

E isso tende a tornar o setor cada vez mais integrado às grandes transformações econômicas globais.