O agente secreto: a recriação da moda dos anos 1970 em quase 3 mil peças no cinema
14 de março de 2026 / 08:01
Foto: Divulgação

O figurino do filme “O Agente Secreto” é um dos grandes destaques da produção, que concorre em quatro categorias no Oscar deste domingo (15). Para recriar a estética do Recife na década de 1970, a figurinista Rita Azevedo realizou uma extensa pesquisa, explorando arquivos históricos e álbuns de família.

Azevedo trabalhou em colaboração com o diretor Kleber Mendonça Filho, com quem já havia se unido em outros projetos cinematográficos. Em entrevista, a figurinista destacou que a parceria com o cineasta começou em 2015, durante o trabalho no filme “Aquarius”, e desde então, os dois têm colaborado em três produções.

“Eu tenho uma parceria com o Kleber já de três filmes. É uma parceria longa, então, quando ele me chamou para fazer ‘O Agente Secreto’ e eu vi que era dos anos 70, eu sabia que eu tinha a obrigação de fazer uma pesquisa que dialogasse, de alguma forma, com o imaginário do Kleber nesse período”, afirmou Rita.

O processo de pesquisa e preparação durou oito semanas, durante as quais a equipe do filme consultou acervos públicos e reportagens da época para entender a vestimenta da população, além de buscar referências pessoais, como os álbuns familiares da própria figurinista.

Referências Pessoais

Uma parte significativa das referências utilizadas veio do próprio lar de Rita. O estilo do protagonista, interpretado por Wagner Moura, foi inspirado no pai da figurinista, que também era engenheiro. As fotografias ajudaram a moldar não apenas as roupas, mas também as expressões corporais do personagem.

“Eu acabei mergulhando no universo de um álbum de um período que eu não vivi, mas que eu era muito familiarizada. Foi muito importante entrar nesse universo do meu pai, resgatar essa vida dele enquanto engenheiro nos anos 70 e trazer, para além do figurino, algumas expressões corporais que ajudaram, inclusive, Wagner nessa construção do personagem”, comentou Rita.

Cerca de 50 personagens e centenas de figurantes foram transportados visualmente para o ano de 1977. A figurinista ressaltou a importância de observar as diferenças entre classes sociais, idades e o clima do Recife na composição dos figurinos. “A gente tinha que observar várias classes sociais, as pessoas não se vestiam da mesma forma. A gente precisava também retratar este calor do Recife e entender de que forma a gente conseguiria fazer isso, com blusas abertas com botões até quase no umbigo… os shorts super curtos, a modelagem das calças, a modelagem das camisas… tudo isso era de extrema importância e eram esses álbuns que traziam essas informações e que faziam com que a gente confeccionasse essas roupas”, explicou.

Um dos maiores desafios da produção foi vestir os figurantes para uma cena de carnaval de rua, que contou com cerca de 300 pessoas. No total, quase três mil peças foram utilizadas nas gravações, com cerca de 70% delas provenientes de acervos que alugam roupas de época para o cinema. O restante foi confeccionado por costureiras locais, baseando-se nas referências coletadas pela equipe.

Profissionais do figurino acompanharam as filmagens para realizar ajustes de última hora nas vestimentas dos atores e figurantes. “Tinham duas costureiras fixas e umas cinco costureiras que ficavam de forma itinerante, acompanhando a gente nos sets de filmagens para poder fazer ajustes de bainha, de boca sino, ajustes de roupa, porque tudo isso é meio que feito na hora”, detalhou Rita.

Entre as peças que se destacaram no filme, uma se tornou especialmente icônica: a blusa do bloco carnavalesco Pitombeira, de Olinda. O sucesso da peça foi tanto que gerou uma fila de espera para a compra e até falsificações por camelôs no Centro do Recife. “A blusa da Pitombeira virou uma peça icônica, é impressionante. Foi emocionante ver, fui dois dias para [o carnaval de] Olinda e recebi muitas imagens dos amigos. É a potência do filme, eu acho que a potência dos atores, mas é a potência do figurino também. Foi muito gratificante. Eu fiquei feliz”, compartilhou.

Com o reconhecimento do seu trabalho, Rita vive um momento de entusiasmo enquanto aguarda a premiação do Oscar. “Eu estou vivendo um dia após o outro, mas eu estou muito feliz, e a gente tem comemorado muito. O Oscar vai vir aí para coroar, e a gente vai levar uma estatueta com certeza”, declarou a figurinista.