
O trabalho dos catadores de materiais recicláveis tem um papel crucial na redução do lixo nos aterros sanitários e gera um impacto social positivo significativo. Durante a noite, quando a maioria da população já encerrou suas atividades, esses trabalhadores ocupam as ruas do Centro de Campina Grande em busca de resíduos descartados. Em meio ao movimento reduzido do comércio, eles percorrem avenidas e calçadas com os chamados “robôs”, grandes sacolas que armazenam materiais recicláveis, que posteriormente são vendidos em sucatas da cidade.
A atividade é considerada essencial para a limpeza urbana e a preservação ambiental, mas ainda enfrenta desafios como a informalidade, baixa remuneração e condições de trabalho precárias. Cada “robô” cheio pode render, em média, cerca de R$ 100 para as famílias que dependem da reciclagem como principal fonte de renda.
Mária de Fátima, catadora há mais de 30 anos, compartilha as dificuldades que enfrenta diariamente, mesmo lidando com problemas de saúde. Ela relata: “Eu levo chuva, levo sol, que eu não posso levar chuva nem sol. Tem hora que eu não tô podendo nem me levantar da cama. Hoje mesmo foi dia que eu não pude nem me levantar da cama que eu tenho osteoporose, quando tá o tempo assim chovendo, assim, dói em todo canto meu, mas é assim. Tá na força de Deus, né? A gente tem que andar. Porque se a gente não andar, a gente não ganha não. Então Deus dá a força, a gente dá a coragem pra gente embarcar pra frente, que é pra gente arrumar o pão de cada dia”.
Apesar das dificuldades do trabalho informal, muitos catadores optam por atuar de forma independente para reter todo o valor arrecadado. Outros, no entanto, têm se unido em cooperativas e associações de reciclagem, um modelo que vem crescendo em Campina Grande. Paulo Borges, que trabalhou por duas décadas no lixão da cidade, agora faz parte de uma cooperativa e afirma: “Eu já passei 20 anos dentro do lixão, trabalhando. Aí no ano 2000, com reunião e mais reunião, aí formaram a cooperativa. Aquele dinheirinho certo, garantido, tá lá. Todo mês tem”.
A engenheira ambiental Rafaela Oliveira destaca que a atuação em cooperativas proporciona mais segurança e acesso a direitos básicos para os trabalhadores. “Esses catadores, que estão em cooperativa ou associação, eles têm os seus direitos garantidos, sejam eles a contratação para a prestação dos serviços de coleta seletiva, assim como o acesso às ferramentas de trabalho adequadas, como a disponibilização de veículos, acesso às rotas de coleta seletiva e também aos equipamentos de proteção individual, o fardamento, a um espaço físico adequado para que eles possam acondicionar seus resíduos e trabalhar em um ambiente mais digno e seguro”.
Dentro das cooperativas, a renda obtida com a venda dos recicláveis é dividida entre os associados, garantindo ganhos próximos ao salário mínimo mensal, e o uso de equipamentos de proteção torna-se obrigatório.
Por outro lado, alguns trabalhadores continuam atuando de forma autônoma, buscando alternativas para aumentar a renda. Fernando Alves, por exemplo, vende materiais recicláveis para empresas de mudança e fretes, afirmando: “Eu já vendo mais caro, porque é um pessoal que trabalha com mudança, aí eu vendo mais caro um pouco, é onde ganha um pouco mais”.
Para muitos catadores, a reciclagem surgiu como a única alternativa diante da dificuldade de conseguir um emprego formal. José Graciano, que atua na atividade há quase duas décadas, conta que começou a catar recicláveis após ser demitido de seu emprego na prefeitura. “Eu cato há 18 anos, né? Porque um dia, 5 de novembro de 2008, fui demitido da prefeitura, onde trabalhei 18 anos prestando serviço. E depois de lá que fizeram a demissão, não arrumei mais emprego em canto nenhum, porque eu só fiz até a quarta série. De 2008 para cá, vai entrar para 19 [anos] que eu cato reciclagem aqui no centro da cidade e vivo disso aí. Recebo um auxílio de 600 reais do Bolsa Família, aí é onde ajuda a pagar minhas despesas”.
Apesar das dificuldades, muitos catadores encontram dignidade no serviço que realizam diariamente. José Arimatéia afirma: “Graças a Deus, a minha vida todinha foi trabalhando. É melhor você estar fazendo as coisas certas do que estar pegando as coisas erradas. A gente sabe que para julgar é muito fácil, né? Para ver o lado da pessoa é meio difícil”.